By Romero/Rio de Janeiro/RJ on Terça, 03 Novembro 2026
Category: DIARIO DE BORDO

UMA LANDER 250, MINHA ESPOSA E A FORÇA DE VONTADE PARA VENCER 4.200 KM

Publicada originalmente na revista Duas Rodas, esta matéria conta a história de uma viagem desafiadora pela BR-230, a Transamazônica. Romero, integrante do Conselho Gestor da Rede Brazil Rider's pelo estado do Rio de Janeiro, e sua esposa, Rosinha, percorreram cerca de 4.200 quilômetros a bordo de uma Lander 250, enfrentando chuva, barro, poeira e longos trechos isolados.

A Rede Brazil Rider's republica este relato de companheirismo, determinação e respeito aos limites da estrada, protagonizado por um de seus integrantes e sua esposa.

Eu e minha mulher, a Rosinha, estamos acostumados a viajar de moto. Já fomos para nove países, encaramos o Deserto do Atacama, Ushuaia e diversos outros desafios. Somos integrantes dos Fazedores de Chuva, grupo de motociclistas que há cerca de 15 anos reúne viajantes dispostos a encarar longas jornadas e desafios que precisam ser comprovados para serem homologados. Mesmo assim, a viagem que fizemos pela BR-230, a Transamazônica, foi diferente de tudo que já havíamos enfrentado.

A ideia surgiu quase por acaso. Nós tínhamos um evento para participar em Rondônia e pensamos: já que estaríamos lá, por que não aproveitar a oportunidade para fazer a Transamazônica? A princípio, porém, não pretendíamos encarar a estrada sozinhos. Saímos de casa e fomos até São Pedro da Aldeia, onde temos um casal de amigos. Eles seguiriam de picape até Rondônia e isso ajudaria bastante, principalmente porque nossa viagem seria feita com uma moto de baixa cilindrada.

De lá, eles continuaram conosco até Porto Velho, onde possuem uma casa. Foi então que assumimos definitivamente a nossa Lander 250 e partimos em direção a Lábrea, no Amazonas.

Precisávamos chegar a Lábrea para fazer a BR-230 em sua totalidade. Não fomos de orelhada. Havia uma expedição organizada que sairia do evento em Rondônia, inclusive com carro de apoio e ferramentas. A ideia era justamente percorrer a Transamazônica em grupo. Só que, já durante o evento, descobri que a expedição havia sido cancelada. As pessoas desistiram por causa das chuvas que ainda atingiam a região da Transamazônica.

Por alguns momentos ficamos até chateados. Mas, como estamos acostumados a viajar sozinhos, eu e a Rosinha decidimos seguir. Hoje, olhando para trás, agradecemos a Deus por aquela expedição não ter acontecido.

O primeiro desafio

De Porto Velho até Lábrea já tivemos uma boa amostra do que nos esperava. O trecho entre Humaitá e Lábrea tem pouco mais de 200 quilômetros de estrada de chão, e as chuvas haviam deixado tudo muito complicado. A primeira parte do caminho, até a balsa, conseguimos fazer de maneira relativamente tranquila. O problema veio depois.

Nossa água estava acabando e, depois da balsa, encontramos uma pequena venda onde poderíamos comprar mais. Decidimos seguir sem abastecer a reserva. Foi uma decisão daquelas que, olhando depois, a gente percebe que poderia ter sido diferente.

A chuva já tinha passado quando chegamos. E isso, naquele tipo de terreno, pode ser ainda pior do que enfrentar a chuva enquanto ela cai. Quando está chovendo, pelo menos você consegue manter determinado equilíbrio. Depois que a água passa, porém, fica o barro. E aquele barro era diferente. Era extremamente grudento. Fixava na moto, acumulava na roda e simplesmente impedia que ela girasse.

Chegamos ao ponto de levar seis horas e meia para percorrer apenas 70 quilômetros. Tive que retirar o paralama da Lander porque, de outra maneira, a roda simplesmente não conseguia girar. O barro grudava, secava e travava tudo.

E cada dificuldade aumentava a seguinte. Nós caímos algumas vezes e, quando isso acontecia, eu já estava tão cansado que não conseguia levantar a moto sozinho. O problema é que o barro escorregava. Você tenta colocar a moto em pé e, em vez de ela ficar, ela simplesmente desliza novamente para o chão. Ainda bem que a Rosinha estava comigo.

Se eu tivesse feito aquela viagem com a minha Tiger 900, provavelmente teria tido muita dificuldade para levantar a moto, mesmo contando com a ajuda dela. Com uma Lander 250, pelo menos tínhamos uma motocicleta relativamente leve. Mas nem isso significava facilidade.

Em uma das quedas, o barro foi tão agressivo que arrancou a sola da bota da Rosinha. O pé ficava preso, ela levantava e a sola simplesmente permanecia grudada no barro. Nos últimos 30 quilômetros até Lábrea, ela precisou seguir usando apenas meia.

Chegamos à cidade já depois das seis da tarde. Ali compramos uma galocha para a Rosinha e começamos a nos preparar para o verdadeiro desafio: percorrer a Transamazônica entre Lábrea e Cabedelo.

Saímos de Porto Velho no dia 8 de junho e chegamos a Lábrea no mesmo dia. Mas só conseguimos deixar Lábrea no dia 12. E não foi por falta de vontade. Era chuva demais e eu sabia que, enquanto o terreno estivesse daquele jeito, não conseguiríamos avançar. Por isso, ficamos três dias esperando a chuva diminuir ou parar e depois esperamos mais um ou dois dias para o solo secar um pouco.

Eu tenho uma maneira muito técnica de enxergar esse tipo de situação: não adianta querer brigar com a natureza. Quando é preciso parar, você para. Foi exatamente o que fizemos.

Só nós dois e Deus

Finalmente saímos de Lábrea no dia 12 de junho, Dia dos Namorados. Nosso destino era Cabedelo, na Paraíba. Chegamos lá no dia 23. Foram 11 dias de viagem pela Transamazônica, sempre com uma preocupação constante: conseguir alcançar o próximo ponto de apoio. Era como matar um leão por dia.

A distância entre os pontos de apoio muitas vezes era grande e passávamos por regiões completamente desertas. Em outras ocasiões, atravessávamos locais habitados por indígenas ou áreas associadas ao garimpo.

Não encontramos nenhum outro viajante de moto durante todo o percurso. O que aparecia eram algumas picapes passando em alta velocidade. Não sei se algumas delas estavam relacionadas ao garimpo clandestino, mas eram veículos que passavam muito rápido e desapareciam na estrada. Também encontramos comunidades indígenas.

Em determinado momento chegamos a um ponto de apoio conhecido como km 180. Ali havia uma pousada que hospedava garimpeiros e até uma pista de pouso de avião. Foi nesse local que recebemos alguns alertas sobre a região. Disseram para não pararmos em determinados pontos da estrada e falaram sobre indígenas que não seriam sociáveis. Chegaram a relatar situações de covardia contra pessoas que passavam por ali. Eu não presenciei nada disso e, felizmente, nossa passagem foi tranquila nesse aspecto. Mas é impossível ignorar o fato de que estávamos atravessando uma região extremamente isolada.

1.800 quilômetros de chão
A BR-230 tem aproximadamente 4.200 quilômetros de extensão. Desse total, cerca de 1.800 quilômetros são de estrada de chão. E é justamente aí que está uma das grandes dificuldades da Transamazônica. Depois de aproximadamente 1.700 quilômetros, começamos a encontrar uma alternância entre asfalto e terra: um trecho asfaltado, outro de chão, novamente asfalto e novamente chão.

Quando a estrada de terra está molhada, o problema é o barro. E não é qualquer barro. Ele vira praticamente uma cola. Quando está seco, aparece outro inimigo: a poeira. Em alguns pontos, quando um caminhão passa, a quantidade de poeira levantada é tão grande que simplesmente não conseguimos enxergar nada à frente. Nesses casos, não existe heroísmo que resolva. É preciso parar a moto e esperar a poeira baixar. É uma questão de segurança.

Não adianta querer avançar a qualquer custo. Essa talvez tenha sido uma das principais lições da viagem.

Muitas vezes a Rosinha descia da garupa e fazia determinado trecho caminhando. Em outras, simplesmente precisávamos parar. Foi assim que conseguimos avançar. A Transamazônica exige muito mais do que habilidade para pilotar. Ela exige paciência.

Não estava preparado​

Existe outro detalhe importante nessa história. Eu saí para a viagem acreditando que faria parte de uma expedição com carro de apoio. Por isso, não levei tudo aquilo que levaria se soubesse que enfrentaríamos a Transamazônica completamente sozinhos. Não levei, por exemplo, ferramentas para consertar um pneu em caso de pane. Por sorte, não tivemos nenhum problema com pneus.

Tivemos, porém, que nos adaptar rapidamente à nova realidade. Aquilo que seria uma expedição passou a ser uma viagem "solo de apenas duas pessoas". Mas nós também não éramos exatamente novatos. Já havíamos feito muitas viagens sozinhos e enfrentado outros desafios. Nos Fazedores de Chuva, inclusive, participei do desafio dos Cardeais, que consiste em percorrer o Brasil de extremo a extremo.

Fizemos a rota do Uiramutã, em Roraima, até o Chuí, no Rio Grande do Sul, e também de Cabedelo, na Paraíba, até Mâncio Lima, no Acre. A ideia é formar uma espécie de cruz no mapa do Brasil, passando pelas cidades mais extremas nos quatro pontos: norte, sul, leste e oeste.

No percurso, inclusive, já havíamos enfrentado a BR-319, outra rodovia conhecida pelas dificuldades de seus trechos de terra. Também estivemos em Uiramutã, onde tivemos problemas com indígenas que queriam impedir nossa passagem. Portanto, não chegamos à Transamazônica completamente inexperientes. Mas cada estrada tem sua própria história. E aquela seria construída dia após dia.

Comprovação a cada quilômetro

Os desafios dos Fazedores de Chuva exigem comprovação. Não basta dizer que fez. É preciso provar. Por isso, documentamos toda a viagem pela BR-230. Tiramos fotos no início e no final do percurso. Registramos todas as divisas de estado e também fizemos fotos a cada 300 quilômetros.

A regra funciona assim: nos estados com mais de 300 quilômetros de extensão dentro do trajeto, tiramos uma foto na divisa estadual, zeramos a quilometragem da moto e seguimos por 300 quilômetros. Ao atingir essa distância, fazemos outra fotografia diante de uma placa da rodovia. E todas as fotos precisam mostrar a mim, a Rosinha, a moto e a placa que identifica o local. Isso serve como comprovação de que realmente estivemos ali.

Também guardamos as notas fiscais de todos os abastecimentos. Em cada posto, tirei uma cópia da nota contendo o posto, meu CPF e a placa da moto. São pequenos detalhes, mas fazem diferença quando o objetivo é comprovar oficialmente um desafio dessa natureza.

Foi justamente por conhecer o sistema de comprovação dos Fazedores de Chuva que surgiu outra constatação interessante. Até onde conseguimos verificar, não existe outro casal que tenha comprovadamente percorrido toda a BR-230 em uma única motocicleta.

Não estou dizendo que somos definitivamente os primeiros, porque é impossível garantir que ninguém tenha feito antes sem deixar registros. Mas, dentro das comprovações existentes e das informações que encontramos, não há, até o momento, outro casal que tenha homologado esse feito utilizando apenas uma moto.

E existe uma razão para acreditarmos que seria muito difícil alguém ter feito e não ter registrado. Motociclista gosta de fotografar. Principalmente quando está diante de uma divisa de estado, de uma placa de rodovia, de um lugar difícil de alcançar ou simplesmente diante de uma paisagem bonita. O motociclista gosta de registrar a viagem. É quase parte da experiência.

Por isso, é bastante provável que um casal que tivesse realizado esse percurso em uma única moto tivesse deixado algum tipo de comprovação. Até o momento, não encontramos.

A maior lição da viagem

Houve ainda uma situação que ficou marcada na minha cabeça. A expedição que originalmente sairia do evento em Rondônia acabou não acontecendo, mas um dos motociclistas decidiu fazer o percurso mesmo assim. Pelo que percebi, talvez ele tenha imaginado que um casal viajando junto poderia atrasar o ritmo. É um pensamento relativamente comum no motociclismo: alguém viajando com garupa pode ter mais dificuldades, principalmente quando essa garupa é a esposa e o percurso envolve uma estrada como a Transamazônica.

Ele decidiu seguir à frente. E sofreu um acidente justamente durante a difícil chegada a Lábrea. Não sei dizer exatamente se houve fratura ou apenas luxação, mas ele ficou internado com o pé machucado e precisou abandonar a viagem. Aquilo reforçou ainda mais uma convicção que eu já tinha: não adianta lutar contra a natureza.

Talvez, se ele estivesse conosco, tivesse esperado mais. Eu fiquei em Lábrea três dias esperando a chuva diminuir e mais um ou dois para o terreno secar um pouco. Não existe vergonha nenhuma nisso. Muito pelo contrário. Na minha opinião, saber a hora de parar também faz parte da experiência de viajar de moto.

Mais que completar uma estrada

Quando finalmente chegamos a Cabedelo, no dia 23 de junho, a sensação foi difícil de explicar. Nós nos abraçamos e nos emocionamos. Não era apenas porque havíamos percorrido milhares de quilômetros. Era porque tínhamos enfrentado uma dificuldade enorme praticamente sozinhos. Eu, Rosinha, a Lander 250 e Deus. Era assim que tínhamos viajado. E talvez tenha sido justamente isso que tornou tudo tão especial.

Se tivéssemos feito parte daquela expedição original, com carro de apoio, ferramentas e várias outras pessoas, certamente a viagem teria sido mais confortável e, provavelmente, mais segura em alguns momentos. Mas não teria sido o mesmo desafio. A dificuldade estava justamente em não ter um carro atrás de nós. Não ter alguém para buscar a moto quando ela caísse. Não ter uma equipe para resolver um problema mecânico. Não ter outra motocicleta para acompanhar ou ajudar. Tínhamos que descobrir os obstáculos e encontrar uma maneira de vencê-los. E conseguimos.

Depois de chegarmos a Cabedelo, nos hospedamos, descansamos um pouco e iniciamos o retorno. A volta foi feita pela BR-101, seguindo em direção ao Rio de Janeiro. Em alguns momentos, saíamos da rodovia para chegar ao litoral, descansar um pouco e aproveitar para fazer turismo. Também era necessário. Voltar de Cabedelo ao Rio de Janeiro em uma Lander 250 é cansativo. Mas fazia parte do desafio.

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No fim, tudo fazia parte.

O barro que arrancou a sola da bota da Rosinha. As quedas. As horas para percorrer poucos quilômetros. A espera pela chuva passar. A poeira que obrigava a parar a moto. Os trechos em que ela descia da garupa e caminhava. A preocupação constante em chegar ao próximo ponto de apoio. A falta de uma equipe de suporte. Tudo isso foi construindo a nossa história.

E existe ainda uma coisa que levamos dessa viagem: a certeza de que aquela ideia que, no começo, pareceu um problema — a expedição ter sido cancelada — acabou se transformando em uma das melhores coisas que poderia ter acontecido. Hoje nós agradecemos a Deus por termos feito a Transamazônica apenas nós dois.

Para nós, viajar de moto sempre foi um pouco disso: sair sem saber exatamente o que encontraremos pela frente, respeitar os limites da estrada, aprender a esperar quando for necessário e, principalmente, confiar um no outro.

No final, conseguimos atravessar a Transamazônica em uma única moto. E fizemos isso do nosso jeito. Eu e Rosinha, só nós dois e Deus.

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